Tornando-me quem sou


Tenho pensado muito.
Ultimamente, acho que a coisa que mais faço na vida é pensar.

Esse ano está me desafiando muito em termos de visão de mundo. Tudo o que julguei ter entendido caiu por terra, mudou, se transformou.

Nunca fui muito boa em aceitar mudanças, apesar de achar que até me adapto bem. Só que tudo tem estado tão... cansativo que já nem sei se estou adaptada ou só empurrando com a barriga até onde dá.

Estou vivendo inúmeros microlutos: de crenças, de confiança, de vivências, de como as coisas eram. O que mais tem mexido comigo é como a vida muda em segundos e, às vezes, só me dou conta muito depois.

Acho que o primeiro grande microluto é sobre a minha relação com o trabalho. Eu sempre tive a ideia de que, para crescer, precisaria ser muito mais do que eu poderia. E fui com tudo nesse pensamento: abraçando o mundo, agarrando todas as oportunidades e buscando a excelência. Afinal, isso nunca foi um problema.

Até ser.

Comecei a notar algumas questões de saúde às quais, antes, eu não dava a mínima importância. Com isso, descobri uma pedra no rim, tive sangramentos mais frequentes, um cansaço absurdo e crises de alergia, as quais nunca tive, além da velha ansiedade, que passou um tempo sem aparecer, mas, quando voltou, voltou com tudo.

Além disso, minha vida pessoal estava... um pouco caótica. Tive questões familiares que me desgastaram muito, física e mentalmente, o que agravou o estado em que eu já estava, embora ainda não conseguisse nomeá-lo.

Fora todo o colapso mundial acontecendo atualmente. Tem horas que penso que preciso ter muito sangue de barata para sobreviver nesse mundo cão, o que, infelizmente, não tenho nem um pouco.

Acho que fui vivendo um monte de coisas externas enquanto o que estava acontecendo internamente começava a pedir uma atenção que eu ainda não estava dando. E o que aconteceu com isso? Burnout.

Não é a primeira vez que tenho burnout, mas voltar a esse patamar, e talvez ter um tão sério quanto esse, foi diferente de tudo o que já vivi. Até porque fiquei um ano e meio sem tirar férias. Mas acho que, desta vez, havia também uma carga de frustração que tornou tudo um pouco mais difícil de assimilar.

Já estou há alguns meses nesse processo, porque burnout não é uma coisa que você pisca e, de repente, está bem. Muito pelo contrário: é preciso ter paciência com o processo e entender que você já está no limite. Não adianta ficar se apressando para se curar. Você não teve burnout de uma hora para outra, então também não vai se recuperar de uma hora para outra.

Finalmente tirei férias nesta última semana e não tinha ideia do quão cansada eu estava. Eu sabia que estava cansada, claro, mas não sabia que era tanto. Não sabia que era um cansaço a ponto de ficar deitada na cama, olhando para o teto, e pensar: “Caramba, eu não tenho que fazer as coisas correndo. Na verdade, agora eu não preciso fazer nada.”

Nos primeiros dias, eu me senti muito culpada por estar descansando. Quando você está naquele ritmo frenético de só correr, desacelerar dá uma sensação de que está faltando alguma coisa.

É como estar de fone de ouvido em um lugar com muito ruído: você aumenta o volume para conseguir ouvir e, depois, quando o barulho acaba e você pode abaixá-lo, tudo parece baixo demais. Você se acostumou com aquele volume alto.

Para mim, o burnout é um pouco isso: se acostumar com um ritmo tão frenético que, quando você finalmente desacelera, pensa: “Caramba... está faltando alguma coisa.”

Mas, se esses momentos me serviram para alguma coisa, foi para começar a entender que descansar é necessário. Quando estamos imersos no ritmo puxado da rotina, às vezes não paramos para pensar. Às vezes, a própria rotina não deixa a gente pensar.

Quando finalmente pude descansar, parei para refletir sobre inúmeras coisas da minha vida, inclusive sobre esse meu jeito workaholic e o quanto ele não estava me fazendo bem. O quanto não estava sendo bom para a minha saúde física, mental e emocional.

Emocionalmente, ainda estou passando por um momento um pouco desafiador, vamos dizer assim. Acho difícil simplificar o que é passar por um burnout. As pessoas podem saber o que ele é, reconhecer seus sintomas e entender como funciona, mas viver é outra coisa. E, principalmente, cada pessoa vai vivê-lo de uma forma diferente.

Além do burnout, também comecei a pensar sobre o boreout e, sinceramente, não sei muito bem onde termina um e começa o outro na minha experiência. Acho que, em algum momento, as duas coisas se misturaram e culminaram em uma situação muito ruim.

Eu briguei muito, o que é estranho para mim, porque não sou uma pessoa de brigar. Geralmente, faço de tudo para evitar conflitos. Mas foi justamente esse o problema: fiz de tudo e, mesmo assim, fiquei com a sensação de que estaria sempre nadando, nadando, nadando para morrer na areia.

Então, eu explodi. Não me orgulho da forma como foi, mas aconteceu. Não gosto de como as coisas se desenrolaram, mas agora preciso lidar com isso.

Mas, se teve uma coisa boa nisso tudo, foi a minha relação com a minha fé. Sigo muito conectada a ela, muito interessada em refletir sobre o que faz sentido, o que não faz e em estabelecer paralelos que conversem comigo.

Já entendi que vejo o mundo de uma forma não tão simples. Não diria diferente, mas não tão simples. E tenho tentado viver a minha fé de forma mais independente, porque hoje consigo entender que não preciso de alguém me dizendo como devo ou não professar a minha fé, ou o que devo fazer em relação àquilo em que acredito.

A crença é minha, sabe?

Como já disse antes, sou uma pessoa muito plural. Não vivo a espiritualidade como uma receita de bolo. Ela só vai, segue. E eu me sinto muito, muito amparada pela minha fé. Acho que isso é uma das coisas que têm me mantido de pé.

E, como sempre, a arte tem me salvado todos os dias.

O burnout é uma coisa tão ingrata que houve uma época em que eu não queria ouvir música. Olhava para os meus quadros, para os meus pôsteres e não sentia aquele alento que sempre encontrei neles. Eu estava me sentindo muito desconectada de tudo.

Felizmente, nessas férias, pude respirar e me lembrar do quanto a arte é importante para mim e do quanto ela é essencial. Desde a adolescência até hoje, a arte sempre esteve ali, inclusive quando muita gente não esteve. Sempre me salvou e continua me salvando todos os dias.

Acho que a maior missão que tenho neste momento é me tornar quem eu sou. Afinal, as lições nunca acabam, apenas mudam de forma.

Nietzsche tem uma frase que diz: “Torna-te quem tu és”. E é isso que estou tentando fazer: me tornar quem sou. Olhar para mim, para as minhas luzes, para as minhas sombras, integrar tudo isso e ser uma pessoa inteira.

Não quero ser a Larissa do trabalho, a Larissa da família ou qualquer outra Larissa que exista em função de alguma coisa. Quero ser Larissa.

Não é fácil e não está sendo fácil. Tem dias muito tranquilos, em que estou bem e penso: “Vamos fazer isso!”. Em outros, começo a chorar, tenho crises de ansiedade fortes e parece que voltei algumas casas.

Mas acho que faz parte do processo. Uma coisa sobre a qual não se fala o suficiente quando o assunto é crescimento e cura é que não existe linearidade. É tudo muito cíclico. Uma hora você está em cima, outra está embaixo e vai se revezando entre esses lugares.

Acho que isso também faz parte de crescer, de se desenvolver e de se tornar quem você é.

E é isso que estou buscando neste momento: ser. Nada mais, nada menos.